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Sunday, August 16, 2009

A Angústia de Nascer no Corpo Errado

Aviso: Sei que muitos leem este artigo escrito há anos atrás. É o mais popular. Não esqueça de deixar seu comentário com suas opiniões e/ou dúvidas para que eu possa pesquisar mais. Os números do PROTIG de Porto Alegre são de 2009.



“A vida de uma transsexual é muito difícil. A dificuldade vem desde que a gente nasce. Quando a gente começa a crescer e ter a noção das coisas é que começa a complicar a vida. Desde criança eu achava que eu era menina. Eu tinha essa sensação e era uma coisa natura minha. Talvez eu tenha motivo, porque eu sou a irmã mais nova de três mulheres. Algumas pessoas acreditavam que era influência disso. Só que quando eu cresci, fiquei adolescente, eu comecei a perceber a sexualidade. Quando a gente é criança a gente não tem noção disso. Na realidade a gente tem essência e a minha Essência era feminina. Aí começaram os problemas. Eu não era menino e não era menina. Eu não aceitava aquele órgão sexual no meu das pernas. Com doze anos, sozinha, fui visitar um médico e pedi receita para hormônio. Ele não quis me dar, mas mesmo assim, eu fui comprar e comecei a tomar. Daí começaram os problemas. Meus seios começaram a crescer e meus problemas começaram...” Vivian Proença.

É problemático. Todo mundo passa por preconceito, passa por diminuição da sua condição. Através de muitas lutas, até comigo mesma até para descobrir quem eu era. A princípio, a gente vem e fica com aquela indefinição: quem eu sou? O que eu sou? O que eu estou fazendo aqui? Quando a gente começa a se entender, a gente começa a fazer a procura. Quando eu comecei a me entender como transexual, quando ouve a oportunidade, eu fui procurar o tratamento ideal que era a cirurgia. Tive que aguardar três anos. Até quem 22 de Janeiro de 2002 eu fiz a cirurgia...” Fernanda Rodrigues

Eu sou uma transsexual operada. Desde criança sempre com um sonho de me tornar mulher, não só de alma, mas também de corpo, pra então ser um só. Cresci com os desejos e sentimentos de mulher, mas com algo que não atrapalhava muito meus relacionamentos. Sempre fui frustrada por causa de algo que me incomodava muito, era vergonhoso ter algo que não gostava. Não participava de uma piscina. Me reprimia muito”. Roberta Sampaio.

Os três depoimentos são síntese do sofrimento por que passam as pessoas que nascem com Transtorno de Identidade de Gênero, também conhecido como transsexualismo. Os indivíduos que nascem com essa condição só encontram a paz de espírito depois que passam por uma cirurgia difícil, dolorida e cheia de riscos. O desafio maior é transformar um pênis em uma vagina que funcione e pareça como uma vagina normal.

Segundo a médica psiquiatra Maria Inês Lobato, que faz parte da equipe multidisciplinar do Programa de Atendimento dos Transtornos de Identidade de Gênero (PROTIG) do Hospital de Clinicas de Porto Alegre: “A alteração dos órgãos genitais masculinos, de natureza irrevogável, não pode ser feito ao primeiro sinal de desconforto. A solicitação da cirurgia pelo paciente pode ser apresentada ao médico de maneira impressiva; contudo, antes de consentir, o cirurgião tem de estar seguro que não está lidando com devaneios eróticos de uma personalidade imatura, mas com uma convicção honesta obtida após longa e madura consideração. Uma avaliação psiquiátrica deve preceder tais procedimentos cirúrgicos para verificar a possível existência de uma psicose (que pode ou não ser uma contra-indicação à cirurgia), mas também um grau razoável de inteligência e estabilidade emocional. É o médico psiquiatra que dá a palavra final que não existe uma outra maneira de ajudar o paciente a encontrar satisfação consigo mesmo”.

A ciência diz que o transsexualismo é um transtorno de identidade de gênero que tem início na infância e se caracteriza por uma insatisfação e angústia com relação ao sexo de nascimento. O individuo tem um desejo de mudar seu sexo aparente e uma permanente busca de jogos, vestimentas, padrões de relacionamento e ocupação profissional com os indivíduos do sexo oposto. Os transexuais devem ser diferenciados de outros transtornos de identidade sexual como o travestismo e o homossexualismo: os travestis costumam assumir vestuário do sexo oposto, associado a um comportamento homossexual ou bissexual, porém sem o desejo de troca de sexo; já o homossexualismo envolve estritamente atração sexual por indivíduos do mesmo sexo, sem desejo de vestir-se como o sexo oposto, ou mesmo de mudar de sexo.

Tanto os transsexuais quanto seus familiares encontram grandes dificuldades dentro de seu núcleo familiar, assim como no restante da sociedade, devido ao preconceito e desinformação com relação ao transsexualismo. “Os pacientes costumam encontrar problemas de adaptação em diversos meios sociais, como na escola ou na profissão”, diz a psicóloga Jaqueline Salvador da equipe multidisciplinar do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, “O indivíduo transsexual crê que é vitima de um acidente biológico, cruelmente implantado em um corpo incompatível com sua autêntica identidade sexual. Muitos solicitam operações de troca de sexo apesar dos sacrifícios que estas implicam. A cirurgia só está justificada em indivíduos motivados, com vida profissional e social estável”, continua a psicóloga.

Quem deve fazer a cirurgia?

Jaqueline Salvador revela que há, atualmente, uma procura cada vez maior de indivíduos que pleiteiam a redesignação de sexo, com base na resolução número 1.482197 do Conselho Federal de Medicina (CFM) de Setembro de 1997 que autoriza em caráter experimental a realização de transgenitalizaçao em transexuais. O Hospital de Clínicas de porto Alegre atende atualmente cerca de 80 pacientes com transtorno de identidade de gênero de ambos os sexos. De acordo com a psicóloga, “os pré-requisitos para os candidatos à cirurgia é que a seleção dos pacientes obedeça à uma avaliação ponderada e multidisciplinar dos candidatos ao procedimento, comnstituída por uma apreciação integrada das investigações clínicas, comportamentais, existenciais e sociais, por médicos psiquiatras, cirurgiões plásticos, psicólogos, endocrinologistas, otorrinos, fonoaudiólogos e assistentes sociais.”.

A interdisciplinaridade é especialmente necessária na decisão da conduta cirúrgica de conversão sexual. Os principais critérios são: dois anos de acompanhamento conjunto, com comprovação da idade, maior de 21 anos, consentimento formal, ausência de transtornos mentais e características físicas inapropriadas para a cirurgia. Ao psicólogo cabe a avaliação do candidato transsexual na comprovação de seu gênero, distinguindo-o do homossexual e do travesti. O paciente deve submeter-se a um tratamento clínico de no mínimo dois anos, preparo e conscientização do processo pré e pós-operatório e a ressocialização do indivíduo nos parâmetros psíquicos, sexuais e profissionais. O diagnóstico deve ser preciso, definindo as intervenções mais adequadas às características do paciente com propósito terapêutico específico de adequar o sexo biológico ao sexo psíquico.


E depois da cirurgia, como é?

“O paciente transsexual vive em estado constante de infelicidade antes da mudança de sexo. Só vai esquecer sua miséria depois da operação de conversão e após assumir a identidade feminina em nome, roupa e aceitação social. Não é apenas a sexualidade frustrada, mas a dilacerante angústia de desarmonia de gênero que o torna um sério candidato a auto-mutilação, tentativa de suicídio ou o próprio suicídio. O alívio falso adquirido do álcool e das drogas não é uma complicação infreqüente”, escreve o Médico Harry Benjamin em seu livro The Transexual Phenomenon, ainda não publicado no Brasil. “Auto-mutilações não são uma raridade em pelo menos quatro de meus pacientes de um total de 152 transsexuais masculinos. Dois deles tentaram castrar-se mas tiveram de desistir e chamar um médico. Um deles conseguiu com a ajuda de um amigo. Um mutilou o pênis e recebeu vários pontos para consertar o estrago. Muitos incidentes foram relatados e, ainda, mais podem existir por aí” relata o livro. Isso nos Estados Unidos. No Brasil, casos semelhantes aconteceram. Como o famoso caso do rapaz do interior do Rio Grande do Sul, que decepou o pênis no quarto de um hotel na cidade de Erechim e depois faleceu por complicações da mutilação.

O que dizem os médicos?

Para o coordenador da Unidade de Mudança de Sexo da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, em São Paulo, o médico Carlos Cury, em entrevista através de e-mail, não existe nada provado sobre a causa do transsexualismo: “Assim como as outras disforias, a medicina, apesar de adiantada em muitos setores, se encontra atrasada em outros. Há ainda polêmica sobre o número real de genes do corpo humano. Pensava-se serem 1000.000 inicialmente, depois acharam que seria em torno de 30.000 e hoje se especula que sejam em torno de 21.000. Quando descobrirem o número real de genes, irão estudar a responsabilidade de cada um para cada doença orgânica e verificar se há ou não ligação com a genética. Só depois se estudarão as doenças comportamentais. Enquanto isso não ficar esclarecido, tudo são hipóteses, teorias, suposições sem evidencias cientificas. Portanto, para cada 40.000 nascimentos, nasce um transsexual masculino e para cada 1000.000 mulheres nasce um transexual”.

No livro Transexual Phenomenon, (disponível na Internet) Harry Benjamin escreve que “as causas do transsexualismo e as possíveis fontes das quais o desejo de mudar o sexo surge são provavelmente controversas. Há somente um começo de um tipo de investigação cientifica que levam em consideração mais do que os aspectos meramente psicológicos. A possível origem do transexualismo não é discutida na literatura medica muito frequentemente ou em muito detalhe. Na maioria das vezes, há a simples afirmação que a causa é desconhecida. Quase invariavelmente ela está ligada com o travestismo e às vezes com a homossexualidade, ambos abrindo portas para a controvérsia. As duas teorias principais estão preocupadas ou com causas orgânicas, isto é, biológicas não necessariamente herdadas ou – muito mais frequentemente – com as puramente psicológicas”.

A Igreja?

Certamente, os transsexuais não podem obter cargos religiosos e o Vaticano exige a expulsão de suas ordens os que tenham mudado de sexo. O cardeal Eduardo Martinez Somalo, prefeito da Congregação Vaticano para os Religiosos, assina um documento, diz o site Terra, no dia 31 de janeiro de 2003, que elimina qualquer possibilidade de transexuais praticarem a vida religiosa em ordens eclesiásticas. Ainda, pelo texto, os padres não poderão alterar as certidões de batismo para adequá-las à mudança de sexo de um fiel, nem autorizar o casamento deste uma feita a mudança de sexo. Terra ainda cita Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação Vaticano para a Doutrina da Fé. A Igreja é taxativa. Não!

A posição da Santa Sé sobre o assunto significa que a Igreja já enfrentou casos de transsexualidade entre seus membros. “Devido à complexidade e delicadeza da questão, pede-se a todos os destinatários que mantenham esta carta e a nota da Congregação para a Doutrina da Fé sob o máximo sigilo e que a utilizem exclusivamente dentro de seu instituto ou sociedade religiosa, com os objetivos indicados”, enfatiza o documento.

“O membro de um instituto religioso, de uma sociedade de vida apostólica ou de um instituto secular que se submeter a uma cirurgia para a mudança de sexo deve ser expulso de sua casa religiosa, pra o bem das almas”, diz a carta assinada pelo monsenhor Martinez. “No que diz respeito à condição sexual de um fiel, o que conta é a inscrição feita originalmente nos registros paroquiais diocesanos. Portanto, inclusive em casos de mudança de sexo via cirurgia ou de mudança de sexo aceita pelo registro civil, nada muda na condição canônica inicial”, acrescenta o documento.

Sobre a admissão de um transsexual na vida religiosa, a negativa do cardeal Ratzinger é absoluta. “Quando uma dúvida prudente quanto à presença do transexualismo surge devido a atitudes exteriores evidentes e testemunhos daqueles que são responsáveis pela formação dos candidatos, o superior deve exigir uma visita médica e psiquiátrica”, diz o prelado. “O candidato não será aceito nem em caso de dúvida, quando não se pode garantir uma identidade plena e clara”, acrescenta. O Vaticano proibiu recentemente o acesso de homossexuais ao sacerdócio.

A lei brasileira?

O médico Carlos Cury, de São José do Rio Preto, diz que “como o código cível/penal brasileiro é de 1940 e os estudos e técnicas utilizados são recentes, não houve ainda mudanças na legislação. Não existe lei ou regulamentação para a legalização da cirurgia do ponto de vista jurídico, inclusive trazendo problemas para o transsexual na regularização de seus documentos. Existe, contudo, na área jurídica, vários profissionais especializados com diversas liminares e vitorias favoráveis aos transexuais já operados.

Quanto à integração na Sociedade?

Superados todos os trâmites legais, é a sociedade quem dá a última palavra. Os casos de transexuais plenamente integrados são raríssimos. Na maioria das vezes, a contradição entre a aparência física e o nome registrado oficialmente fecha as portas para conseguir um emprego normal. Por isso, muitos destes homens e mulheres que conseguiram mudar a aparência que a natureza lhes furtou, a única saída é prostituição ou, no melhor dos casos, o mundo do espetáculo. Só uma minoria consegue chegar a um emprego satisfatório e incluso, e a refazer sua vida sentimental. Carlos Cury constata que “a maioria dos nossos casos operados apresentam um euforia que consideramos prejudicial, uma vez que depois da cirurgia as dificuldades da vida continuam as mesmas. Nenhum príncipe encantado vai aparecer para mudar a vida da pessoa, pelo contrário, livre das amarras, ela (ou ele) terá que ralar como qualquer outra pessoa.”

Nossas mulheres do começo da história?

No dia 12 de abril eu me operei no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Fiquei oito dias internada. Foi bem doloroso e sofrido. A recuperação é lenta. A sensação de liberdade que se tem depois da cirurgia é indescritível. O sonho de uma transsexual é se operar. A medicina e a ciência estão tão avançadas que elas conseguiram realizar um sonho. Hoje, eu estou completa fisicamente. Eu tenho orgulho de ser uma transexual operada porque eu sei quanto eu batalhei para conscientizar as pessoas que a gente merece ser respeitada. A cirurgia foi para mim uma grande vitoria. Hoje eu me aceito. Apesar de eu ter feito mais duas cirurgias reparadoras, isso não me entristece. Acredito que quando sair minha documentação eu vou estar mais completa e vou viver cada vez melhor”. Vivian Proença.

Depois da cirurgia, não precisei mais me esconder. A expectativa é muito melhor do que antes. A vida, tudo muda. Eu tinha um monte de preconceitos. Havia coisas que eu não fazia. Depois que eu consegui isso, tudo é fácil. Eu consegui fazer uma modificação de 360 graus em minha vida. É claro que a gente nunca chega à perfeição. Eu dizia que antes da cirurgia eu estava em condicional, depois da cirurgia, eu estou livre. Eu vivia num casulo. Agora eu sou uma borboleta. Palavras não conseguem exprimir o que eu sinto”. Fernanda Rodrigues

Hoje, passado um ano (2005) e quatro meses, sou a pessoa mais feliz do mundo pois sou o corpo, a alma e a mente feminina. O meu maior prazer foi sentir orgasmo ao ser penetrada. Gozar é ótimo. Hoje eu posso dizer que eu sou muito feliz”. Amanda Sampaio



Nota 1: A psicóloga Jaqueline Salvador, do Protig, atualiza os números: Ela nos informa que dos "243 pacientes atendidos pelo nosso serviço, destes, 80 já realizaram a cirurgia de redesignação sexual" Setembro 2009.

Nota 2: Novidades no PROTIG: SUS vai incluir na tabela de procedimentos as cirurgias para Transsexuais. Junho 2010.

Nota 3: Veja aqui uma avaliação pós-cirúrgica de dois irmãos transsexuais.

2 comments:

  1. Amei o artigo, amore! Obrigada por indicá-lo a mim! Não poderia ter sido mais apropriado! Imagino o quanto deve ser libertadora essa intervenção cirúrgica, uma vez que o prévio tratamento hormonal já nos realiza bastante, mas sozinho, deixa algo a desejar. A cirurgia é a meta de todas nós e fico muito feliz em contar com o apoio de pessoas que se preocupam não só com a condição física de nós transexuais, mas também com a nossa condição espiritual. Obrigada! Foi um presente! Beijos enormes com saudade de Ipanema! hehe

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  2. Que bom poder ter ajudado, Nina.

    Muitos beijos!

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